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Artigo publicado

Neuralgia do trigêmeo: 4 cirurgias e 12 anos de dor

A neuralgia do trigêmeo é uma condição neurológica rara que provoca crises de dor facial comparadas a choques elétricos e facadas. Ela afeta o nervo trigêmeo, responsável por levar sensações do rosto ao cérebro. Quando os medicamentos deixam de funcionar, existem opções cirúrgicas e terapias avançadas. Entenda os sintomas, as causas e o que a ciência oferece hoje.

O que é neuralgia do trigêmeo?

A neuralgia do trigêmeo é uma condição neurológica rara que provoca crises de dor facial intensa, descritas como choques elétricos ou facadas. Ela afeta o nervo trigêmeo, responsável por transmitir sensações da face ao cérebro. A causa mais comum é a compressão do nervo por uma artéria ou veia.

O nervo trigêmeo tem três ramificações principais, que inervam a região dos olhos, do nariz e da mandíbula. Por isso, a dor pode atingir diferentes partes do rosto. Crises súbitas costumam ser desencadeadas por ações simples como falar, mastigar, tocar o rosto, sentir uma brisa ou mudanças de temperatura. A doença atinge menos de 0,3% da população mundial, segundo o médico neurologista Bruno de Castro.

Embora seja mais comum entre pessoas de 50 a 80 anos, a neuralgia do trigêmeo pode aparecer em jovens, como no caso de Carolina Arruda, que aos 27 anos convivia com a forma bilateral e contínua da doença. Essa variante é ainda mais rara e desafiadora.

O que está acontecendo no nervo?

A dor ocorre porque o nervo trigêmeo, assim como todos os nervos, é composto por feixes de neurônios que se comunicam por sinais elétricos. Quando um vaso sanguíneo comprime esse nervo, a passagem de informação fica comprometida e gera disparos anormais.

Os neurônios transmitem informações por meio de potenciais de ação, que são inversões rápidas de carga elétrica na membrana celular. Esses sinais viajam ao longo dos axônios e, no final do neurônio, liberam neurotransmissores que passam a mensagem para a célula seguinte. No caso da neuralgia do trigêmeo, a compressão física irrita o nervo e provoca as crises de dor.

A descoberta de que a eletricidade, e não fluidos, movimenta o corpo humano remonta aos experimentos de Luigi Galvani no século XVIII, com pernas de rã que se contraíam ao contato com eletricidade. O contexto histórico influenciou até a literatura, como em Frankenstein, de Mary Shelley. Hoje, a bioeletrogênese é um campo específico da neurofisiologia.

O caso de Carolina Arruda e o coma induzido

Carolina Arruda, jovem de 27 anos, passou por quatro cirurgias e consultou pelo menos 50 médicos em busca de alívio. Com dor contínua nos dois lados do rosto, ela relatou ficar até 70 horas sem dormir mesmo tomando mais de 12 medicamentos, incluindo morfina e canabidiol.

Diante da falha dos tratamentos convencionais, a equipe médica da Santa Casa de Alfenas, no sul de Minas Gerais, sob supervisão do médico Carlos Marcelo Barros, propôs um coma induzido como medida paliativa. A ideia é que, ao ficar inconsciente e sem processar a dor, o cérebro deixe de receber medicamentos continuamente, permitindo que os receptores se recuperem.

Esse procedimento faz parte de um protocolo clínico de estudo científico desenvolvido pelo Centro de Dor da Santa Casa. A hipótese é que, ao limpar os receptores saturados, os medicamentos voltem a fazer efeito quando a paciente despertar. É uma estratégia de reinício, não uma cura.

Por que os medicamentos param de funcionar?

O uso prolongado de opioides e medicamentos para dormir, como benzodiazepínicos e drogas Z, leva à saturação dos receptores no cérebro. Com o tempo, a mesma dose já não produz o efeito desejado, e a pessoa precisa aumentar a quantidade para obter alívio.

Esse fenômeno é conhecido como tolerância. Ele ocorre porque os receptores se adaptam à presença contínua da substância. O resultado é um ciclo de escalada de doses que, em casos de dor crônica intensa, pode chegar a dezenas de comprimidos por dia sem controle adequado.

No caso da neuralgia do trigêmeo, a dor é tão intensa que os pacientes muitas vezes não conseguem dormir, o que agrava o quadro. A privação de sono aumenta a produção de hormônios neuroestimulantes que pioram a dor, criando um ciclo vicioso difícil de romper.

Tratamentos disponíveis: do medicamento ao implante

O tratamento da neuralgia do trigêmeo começa com medicamentos anticonvulsivantes e relaxantes musculares, que reduzem a frequência das crises. Quando essas opções falham, podem ser indicadas cirurgias para descomprimir o nervo ou procedimentos que bloqueiam a condução da dor.

Entre as alternativas estão a rizotomia por radiofrequência, a compressão por balão e a estimulação cerebral profunda. Nos casos mais recentes, implantes de neuroestimuladores são usados para modular o nervo e impedir a passagem dos sinais dolorosos. Esses dispositivos são programáveis e podem ser ajustados conforme a necessidade.

A escolha do tratamento depende da causa da neuralgia, da resposta aos medicamentos e das condições clínicas do paciente. O acompanhamento deve ser feito por uma equipe multidisciplinar, incluindo neurologistas, neurocirurgiões e psicólogos.

O impacto psicológico da dor crônica

Viver com dor crônica vai muito além do desconforto físico. O psicólogo Martin Seligman descreveu o desamparo aprendido, um fenômeno em que a pessoa começa a acreditar que nenhuma ação vai mudar seu resultado. Com o tempo, ela perde a motivação para tentar coisas novas.

No caso da dor crônica, o desamparo aprendido pode levar à depressão e ao isolamento social. A pessoa tenta diferentes tratamentos, mas a dor persiste, e a sensação de falta de controle se instala. Esse quadro não é fraqueza, é uma resposta natural a um ambiente adverso e imprevisível.

O suporte psicológico é parte essencial do tratamento. Terapias como a cognitivo-comportamental ajudam a lidar com os pensamentos negativos e a manter a adesão aos tratamentos médicos. O objetivo é preservar a qualidade de vida dentro do possível.

O que esperar do futuro dos tratamentos?

A pesquisa em neuroestimulação e terapias genéticas avança, mas ainda não há cura para a neuralgia do trigêmeo. Os tratamentos atuais focam no controle dos sintomas e na melhora da qualidade de vida. Para casos refratários, como o de Carolina Arruda, protocolos experimentais oferecem uma esperança.

O acompanhamento contínuo e a individualização das terapias são fundamentais. Cada paciente responde de forma diferente, e o que funciona para um pode não funcionar para outro. A ciência segue buscando alternativas menos invasivas e mais eficazes.

Enquanto isso, a conscientização sobre a doença ajuda a reduzir o estigma e a promover o diagnóstico precoce. Quanto antes o tratamento começar, maiores as chances de controle.

Neuralgia do trigêmeo: perguntas frequentes

  • O que é neuralgia do trigêmeo? É uma condição neurológica rara que causa dor facial intensa, comparada a choques elétricos, devido à compressão do nervo trigêmeo. Afeta menos de 0,3% da população mundial.
  • Quais são os sintomas? Crises súbitas de dor no rosto, desencadeadas por falar, mastigar, tocar a face, sentir vento ou mudanças de temperatura. A dor pode ser contínua em casos graves.
  • A neuralgia do trigêmeo tem cura? Não existe cura definitiva, mas há tratamentos que controlam a dor, como medicamentos, cirurgias e implantes de neuroestimulação. O objetivo é reduzir a frequência e a intensidade das crises.
  • O que é o coma induzido para neuralgia do trigêmeo? É uma medida paliativa experimental que coloca o paciente em coma por alguns dias para que o cérebro não processe a dor e os receptores se recuperem da saturação medicamentosa.
  • Quem pode se beneficiar do implante de neuroestimulador? Pacientes com dor refratária a medicamentos e cirurgias convencionais. O dispositivo modula o nervo e impede a passagem dos sinais de dor.
  • A neuralgia do trigêmeo é hereditária? Na maioria dos casos, não. A causa mais comum é a compressão do nervo por um vaso sanguíneo, mas fatores genéticos podem desempenhar um papel em casos raros.
  • Como é feito o diagnóstico? O diagnóstico é clínico, baseado na descrição dos sintomas e no exame neurológico. Exames de imagem, como ressonância magnética, podem identificar a compressão do nervo.
  • Qual médico procurar? O neurologista é o especialista indicado para investigar e tratar a neuralgia do trigêmeo. Em casos cirúrgicos, o neurocirurgião participa da avaliação.
  • O que é o desamparo aprendido? É um fenômeno psicológico descrito por Martin Seligman em que a pessoa acredita que suas ações não mudarão o resultado, levando à passividade e à depressão.
  • Existe algum tratamento pelo SUS? Sim. O caso de Carolina Arruda foi conduzido pelo SUS na Santa Casa de Alfenas, com supervisão médica e protocolo de estudo clínico.

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